Battisti e a gauche-caviar
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Na França, um grupo de intelectuais e políticos que se auto-intitulam esquerdistas receberam o sugestivo apelido de “gauche-caviar” (esquerda-caviar). Isto porque não saem dos locais freqüentados pelas celebridades e endinheirados.
Essa “gauche-caviar”, numa comparação, é a nossa esquerda festiva, que freqüenta a coluna social, só voa em jatinhos particulares, pede vinho com base na fama do rótulo, escolhe restaurantes 5 estrelas e divide a mesa com reacionários como o falecido Antonio Carlos Magalhães.
O presidente Nicolas Sarkozy,– um direitista que quando ministro do interior da França mandou as polícias reprimirem violentamente, com emprego de bombas e cassetetes, rebelados e desorganizados excluídos sociais da periferia (filhos de imigrantes, já nascidos na França e, pela falta de oportunidade, transformados em “cidadãos de segunda classe”)–, aproximou-se da “gauche-caviar” e, como já se previa, muitos desse grupo assumiram cargos no governo. Lógico, o ideal cedeu lugar às vantagens que enchem bolsos e garantem convites nas mais badaladas festas e solenidades.
Essa “gauche-caviar” sempre é cortejada pelos governantes, como explica o historiador e diplomata aposentado Sérgio Romano, um dos maiores intelectuais da Europa. No governo de François Miterrand, ela protegeu os membros de grupos da luta-armada italiana, desejosos de derrubar o estado-demorcático, nos anos de chumbo, ou seja, das suas bombas, explosões e tragédias decorrentes dos atentados que vitimavam cidadãos inocentes.
Como escreveu Sergio Romano, essa esquerda dos “salões elegantes” arrancou de Mitterand, pois sabia do seu calcanhar de Aquiles, a chamada “doutrina Mitterand”: os que participaram de luta armada, desde que dela renunciassem, podiam residir na França, sem risco de extradição.
O calcanhar de Aquiles decorria do fato de Mitterand ter sido, no curso da Segunda Guerra, colaborador e condecorado pelo governo de Vichy, filo-nazista. Um governo colaborador do nazismo. A “doutrina Mitterand” nunca foi escrita e tinha a força de uma lei, ou melhor, de um escudo protetor àqueles que a “gauche-caviar” considerava heróis.
O escudo protetor serviu a Cesare Battisti, com antecedentes de ladrão e de praticante de atos libidinosos com pessoa incapaz. Na França, chegou a furtar. Os membros do partido Verde e a escritora Fred Vargas, campeã de venda de livros como Paulo Coelho, viraram os protetores de Battisti.
Quando Mitterand deixou a presidência, “a doutrina não escrita” perdeu automaticamente a validade. A Itália pediu à Justiça da França e teve deferido o pedido de extradição de Battisti.
No curso do processo de extradição, Battisti foi colocado em prisão domiciliar, com a obrigação de semanalmente se apresentar às autoridades. Como sabia que seria extraditado, fugiu e só se soube dela pelo não comparecimento ao local estabelecido para apresentação semanal.
À revista IstoÉ, desta semana, Battisti, para tumultuar, diz terem sido os 007 franceses que lhe aconselharam a fuga, deram-lhe passaporte e facilitaram tudo.
Essa “gauche-caviar” sabia que a derrocada do Partido Comunista italiano (PCI), –que estava em ascensão e conquistaria o poder–, decorreu da atuação dos movimentos terroristas de esquerda, como, por exemplo, as Brigadas Vermelhas. O grupo terrorista autodenominado Proletariados Armados para o Comunismo, onde pontificou Battisti (um ladrão que se filiou aos terroristas na cadeia onde cumpria pena), era insignificante. Contava com 60 membros e a meta era atacar presídios e pessoas nos bairros: quando não matavam, atiravam nas pernas das pessoas.
O eurocomunismo não agradava à “gauche-caviar”. Ele era diferente do comunismo soviético, pois pregava o pluralismo político e o respeito à democracia Ocidental. A “gauche-caviar” gostava, sempre sem sair dos salões, dos revolucionários que, pela força das armas, tinham por meta conquistar o poder.
Com efeito. Durante minha formação conheci o eurocomunismo e fiquei encantado com as posturas de Enrico Berlinguer, fundador do Partido Comunista italiano. E admirava Giorgio Napolitano, um comunista histórico, hoje presidente da República. A propósito, Napolitano e o Partido Democrático, de esquerda e abrigo dos que participaram da juventude comunista, são favoráveis à extradição de Battisti.
Alguns dados históricos faço questão de lembrar, em especial pela ignorância e o despreparo do ministro Tarso Genro.
Com efeito. Nascido em 1925, Sergio Flamigni foi um dos líderes do Partido Comunista Italiano (PCI). Por vinte anos atuou como deputado e integrou as Comissões Parlamentares de Inquéritos (CPI) sobre o seqüestro e o assassinato do ex-premier Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, quando os terroristas, de esquerda e de direita, tentaram derrubar o Estado democrático de direito.
Flamigni, comunista histórico como o saudoso Enrico Berlinguer e Giorgio Napolitano, este atual presidente da Itália, frise-se, testemunhou o “estrago” que as organizações subversivas (terroristas) de esquerda causaram ao então ascendente PCI, segundo maior e que pregava o respeito ao pluralismo político e à democracia, em flagrante oposição à ortodoxia soviética.
Os antigos eurocomunistas, agora reunidos no Partido Democrático (PD), o segundo maior e de oposição ao governo do premier Sílvio Berlusconi, são favoráveis à extradição de Cesare Battisti, como destaquei acima. Os seus membros consideram ainda não encerrada a página da história italiana sobre o terrorismo. Em outras palavras, os Battisti, como os Brilhante Ustra da ditadura militar brasileira, precisam prestar contas.
No esquerdista PD, Piero Fassino, ex-ministro da Justiça, e Walter Veltroni, presidente e líder dos democratas, são favoráveis à extradição de Battisti para que cumpra as penas por crimes comuns, quatro homicídios, e não políticos. Ressaltou Fassino, em entrevista à televisão, que delitos de sangue numa democracia são crimes comuns e não políticos. E arrematou, com conclusão irrespondível, “o ministro Genro não entendeu nada”. De se acrescentar: não leu os processos e não conhece o Direito.
Mais ainda, decisão da Justiça de outro país não pode Genro revisar ou cassar. Ainda, se um grupo direitista for formado para matar Genro, por não concordar com a sua ideologia e linha política imposta ao seu ministério, qualquer atentado à sua vida por motivação ideológica será crime comum e não político, pois o Brasil é uma nação democrática. Com Battisti não deve ser diferente.
De se ressaltar que a Refundação Comunista, sem nenhuma cadeira no Parlamento, já se manifestou contrária à extradição de Battisti e teve a certeza, nesta semana e em face de sondagem, que trilhou caminho impopular. Daí, a neofascista Daniela Santachè querer vir ao Brasil insistir na extradição
A primeira-dama francesa, Carla Bruni, que se apresentou como de esquerda e que fugiu da Itália com medo do terrorismo de então, detonou Battisti. Ela cavou uma entrevista na televisão italiana (RAI3) e, em pergunta sob encomenda, afirmou nunca ter intercedido em favor de Batttisti e que se solidarizava com as famílias das vítimas dos assassinatos de Battisti.
Não bastasse, a conservadora The Economist deu uma bola-dentro. Ou seja, acusou o presidente Lula de ser anacrônico por manter a tradição de conceder asilo político a ditadores e facínoras: Alfredo Strossner et caeterva.
Flamigni participou das CPIs antimáfia e sobre a Loja Maçônica P2. Ele tem várias obras publicadas, uma delas intitulada A Carreira Política de Francesco Cossiga, cuja carta em favor de Cesare Battisti tanto sensibilizou o desinformado ministro Tarso Genro. Carta no sentido de Battisti ter perpetrado crimes políticos.
A propósito, e o próprio Flamigni conta sobre a constituição, à época de Battisti e junto aos serviços de inteligência do ministério do Interior do direitista Cossiga, de uma ultradireitista “organização paramilitar secreta de inspiração Atlântica”, que foi responsável por atentados e grandes tragédias.
Fora isso, por considerar Cossiga co-responsável pelo assassinato de Moro, a esposa e filhos do ex-premier assassinado recusaram-se a participar dos funerais de estado: não mudaram opinião.
Flamigni conta sobre a chamada para consultas do embaixador americano Richard Gardnem. Na volta a Roma, Gardnem leu nota do Departamento de Estado norte-americano: “ Os líderes democráticos devem demonstrar firmeza em resistir à tentação de encontrar soluções entre as forças não democráticas”.
Tratava-se de advertência a Aldo Moro que criou, na Democracia Cristã, o centro-esquerda e estabelecia aliança com o PCI de Berlinguer para um novo governo. Em 12 de janeiro de 1978 a nota foi lida por Gardnem e, no seguinte 16 de março, Aldo Moro foi seqüestrado pelas Brigadas Vermelhas.
PANO RÁPIDO. Os factóides de Genro, usados como cortina de fumaça para camuflar o único fundamento da canhestra decisão concessiva de status de foragido a Cesare Battisti (presunção de risco de perder a vida na Itália), caíram todos no ridículo.
Genro deu a decisão a agradar a turma do “Gauche-Caviar” (esquerda do caviar), capitaneada pela escritora francesa Fred Vargas. A asneira do fundamento não deixa dúvida. A Itália já prepara um substituto para a queda de braço com o Brasil: quer, como informei em “post” abaixo, entrar com representação contra o Estado brasileiro na Corte Internacional de Haia, das Nações Unidas.
Passou da hora do presidente Lula revisar a decisão de Genro, que mal atuou como agente da autoridade do presidente da República.
Wálter Fanganiello Maierovitch








