Brenda pode ter integrado rede de extorsão. Seu fantasma apavora políticos e celebridades italianas
De Roma, para TERRA MAGAZINE
Em primeira página, os jornais italianos continuam a noticiar a misteriosa morte da travesti brasileira Brenda, registrada no Pará como Wendell Mendes Paes: ela morreu, aos 32 anos de idade, asfixiada pela fumaça de um incêndio em seu apartamento e teve carbonizado metade do seu corpo .
No momento, o ROS - que é um grupo especial de repressão ao crime organizado mafioso e ao terrorismo - realiza o levantamento do tráfego telefônico nos três números dos celulares utilizados pela falecida Brenda.
Enquanto isso, a associação italiana de transsexuais e a organização não governamental Libélula pediram, hoje na parte da manhã e ao chefe da Esquadra Móvel de Roma, proteção policial para os seus membros.
A Libélula é presidida pelo brasileiro conhecido por Leila Daianis, residente há trinta anos na Itália.
No sábado e organizado pela Libélula, houve passeata. Na faixa principal portada pelos participantes - fundo branco e escrita em tinta vermelha - vinha grafado “Brenda: omicidio. Basta vittime”.
Brenda, segundo investigação em curso, pode ter integrado um grupo de extorsionistas ligados a Gianguarino Cafasso. Este era um cafetão de travestis, que morreu de overdose de cocaína. Hoje, à mídia italiana, Pasquale Cafasso, pai do gigolô Gianguarino, afirmou que o filho foi assassinado.
Revelou Paquale ter o filho avisado-lhe que, em face do caso Piero Marrazzo (o governador filmado quando mantinha relacionamento com a travesti brasileira Matalia), estava sendo ameaçado de morte. Assim, o conhecido Rino (Gianguarino) pode ter sido drogado e, como era diabético, obeso e tinha insuficiência cardíaca, assassinado.
Rino, além de intermediar “programas com travestis”, descontava, abatida comissões, os cheques recebidos pelos travestis estrangeiros. Como todos os travestis estrangeiros estão ilegalmente na Itália, não podem abrir contas em banco. Ele manobrava, também, o chamado “mercato nero” de locações de mini-apartamentos para travestis, nas vias de Due Ponti e Acqua Certosa: o aluguel mensal variava de 500 a 600 euros mensais, sem risco de batida policial e prisão para os não portadores de autorização para permanência no país.
Brenda era uma das travestis desfrutadas por Rino, que fez proposta de venda do vídeo do “affair” do governador Marrazzo com a trans-brasileira Natalia ao cotidiano Libero e para uma agência de publicidade, onde o ROS realizou a apreensão, antes da difusão.
Com efeito. O ROS trabalha com a hipótese de Rino e Brenda terem se associado para filmar Marrazzo. E outros políticos e celebridades - daí a importância do levantamento do tráfego telefônico para conhecimento das relações profissionais e sociais de Brenda - podem ter sido alvos de chantagens financeiras.
A polícia trabalha com a hipótese de vários vídeos e, no mundo “gossip”, fala-se da “lista dos doze”, nome associado aos apóstolos dos travestis. Especula-se a respeito de nomes de dois políticos, um ministro e um jornalista famoso.
Brenda, no primeiro depoimento ao ROS, contou que não conhecia Marrazzzo e “nunca tivera nada com ele”.
Depois de desmentida por outras transsexuais, admitiu, no início deste mês de novembro, encontros com o governador Marrazzo.
No segundo depoimento, colhido na presença do procurador Giancarlo Cataldo, Brenda falou de um segundo vídeo, que ela mesmo produziu. Ou seja, dela e da trans Michelly com o governador Marrazzo, numa banheira. Sobre esse vídeo, Brenda disse haver sido feito com a anuência de Marrazzo e que, depois do escândalo com Natalia, ela o apagou do computador, onde gravara.
Nesse segundo relato, surge menção ao computador, cuja existência, no primeiro depoimento, foi negado por Brenda: “Não tenho computador porque não sei mexer neles”. Um computador, debaixo d´água, restou apreendido no apartamento de Brenda, no dia do incêndio e da sua morte: o disco de memória foi recuperado pela perícia.
Enquanto o ROS cuida das investigações sobre extorsão, a Esquadra Móvel de Palermo apura a morte de Brenda.
O procurador Giancarlo Cataldo continua a insistir no homicídio. Mas, não se descarta a hipótese de morte acidental, ou seja, um incêndio quando Brenda estava sob efeito de alta dosagem de sonífero e de ingestão de álcool: confira no “post abaixo” os três mistérios ainda não solucionados.
Incêndio, consoante os peritos, iniciado em uma maleta com rodas (troyller). O que havia no interior da referida maleta para provocar a combustão não se sabe. Hoje, no período vespertino, serão ouvidos os bombeiros que apagaram o fogo no apartamento. Serão perguntados sobre a cor das labaredas.
Com efeito. Hoje, no velho bairro do Trastevere, almocei com a competente jornalista Vera Araújo, que, com muito brilho, escreve semanalmente ao Terra Magazine.
Vera Araújo, que vive faz mais de 20 anos em Roma, bem definiu o que se passa no momento: “o italiano, e os jornalistas daqui, acham que a morte da travesti Brenda é apenas a primeira camada de um mar de lama”.
Na verdade, quando as coisas começam por acaso e chocam, ninguém sabe onde elas chegarão.
Essa é a frase que mais ouvi na capital da Itália, que é, também, a da região Lazio. A frase decorre do chamado “caso Marrazzo”, com duas pessoas mortas num arco de dois meses: Gianguarino Cafasso, apelidado Rino ou Chiappe d´Oro e morto aos 37 anos de idade, e Wendell Mendes Paes, transsexual apelidado Brenda, de 32 anos de idade e natural do Pará, morto há menos de uma semana.
Só para lembrar, abro parêntese.
Lazio é a região cujo governador, Piero Marrazzo, renunciou depois da divulgação da notícia de haver sido filmado numa cama e a fazer sexo com a travesti carioca conhecida por Natália.
Natalia (ela reclama quando o jornais escrevem Natalie) é um travesti - por aqui se fala e escreve “viado”- que mora, por coincidência, vizinha ao apartamento onde ficou em cativeiro, e depois acabou assassinado, o ex-primeiro ministro, presidente do partido da Democracia Cristã e professor de direito processual penal, Aldo Moro. O jus-político Moro foi vítima das Brigadas Vermelhas, em 1978.
Em setembro passado, os integrantes do ROS recolheram em interceptações ambientais e telefônicas a informação de uma extorsão, a vitimar o governador Marrazzo.
À época, o ROS investigava tráfico de cocaína pela facção casalese (da cidade campana de Casal de Príncipe) da Camorra.
O vídeo do ‘affair’ Marrazzo-Natalia estava sendo oferecido a jornais, editoras e emissoras privadas de televisão. Soube-se, também, que Marrazzo fora extorquido por quatro policiais carabineiros: os carabineiros invadiram o apartamento de Natalia e o surpreenderam com a travesti e grande quantidade de cocaína em cima de uma mesa.
Pelas provas colhidas, os policiais, dados como extorsionistas, foram avisados da presença de Marrazzo no apartamento de Natalia pelo cafetão Rino. Segundo a acusação - e dois dos quatros policiais estão presos, Marrazzo entregou quatro cheques aos policiais. No particular, um outro mistério, ou seja, os cheque não foram descontados no banco sacado.
Até agora, as imagens do vídeo Marrazzo-Natalia não vazaram.
Marrazzo é do partido de oposição a Berlusconi, que, depois de um mês, resolveu contar-lhe sobre o vídeo oferecido para a sua empresa editorial. Dias após, enquanto Marrazzo tentava comprar as cópias do vídeo com a agência que recebera em consignação, o ROS chegou primeiro e realizou a apreensão.
PANO RÁPIDO. Gabriele Paoli anunciou que está na posse de um vídeo, feito por ele há vinte anos atrás. O filme conta a vida e entrevista um jovem transsexual brasileiro que se prostitui em Roma. O trans é a falecida Brenda.
–Wálter Fanganiello Maierovitch–



Brenda foi para Itália se prostituir com 12 anos? Vídeo feito há 20 anos - Idade de Brenda (32 anos) = 12 anos. É isso mesmo? Muito estranho
Comentário por como é? — 23 de novembro de 2009 @ 15:15
Caro professor!Acredito que houve um engano no último trecho da matéria.O tal “Brenda” foi para a Itália se prostituir aos 12 anos de idade?Quanto a rede de extorsão,sem dúvida existe,talvez até sendo orquestrada pela CAMORRA…..
Comentário por Silvio C. Figueira Dias — 23 de novembro de 2009 @ 16:12
Agora um travesti brasileiro é acusado de fazer parte de uma rede de tráfico de transexuais para a Itália. O que é isso? Nem entre os iguais há respeito nesse país?
Augusto…..http://asimplicidadedascoisas.wordpress.com/
Comentário por Augusto — 23 de novembro de 2009 @ 16:28
Esse é um mundo muito podre.
Onde Deus não está é isso que acontece.
Deus não aprova homem com homem, tampouco mulher com mulher.
Pode-se v er que junto com a homoafetividade sempre há o crime.
Penso que as pessoas deveriam se esforçar para seguir o caminho de Deus.
Essa conversa de orientação sexual é coisa do diabo, a única orientação que presta é a que Deus nos dá (nascemos com ela).
Esse pessoal deveria pedir a Deus para ajudá-los a sair dessa condição. Deus tem recurso para isso. Falta fé.
Comentário por André Luís de Araújo — 23 de novembro de 2009 @ 16:33
Me parece um assassinato com todas as letras tentado forjar um “acidente”! Não é a primeira vez que entopem a vítima de álcool e entorpecente a força.
Comentário por bandarra — 23 de novembro de 2009 @ 16:41
Pôxa, nem na terra do PAPA os travestis tem sossego. Que coisa hem?
Comentário por KARLA — 23 de novembro de 2009 @ 16:45
Claro que ele Marazzo deu um fim em Brenda!!!! sabia muito , expoes ele totamente….então. Mais precisa de justica nesse mundo que vivemos
ainda temos a falta dela famosa justica, e pra outros tantos crimes empune.
Comentário por andreia — 23 de novembro de 2009 @ 17:06
Ronaaaaaldo.
Comentário por Zina — 23 de novembro de 2009 @ 18:26
Muito minuciosa e rica em informações a matéria. Não precisava tanto, pois nesse mundo de travecos e prostitutas sempre ocorrem tragédias e escândalos em qualquer parte do mundo. Esse é mais um.
Comentário por marcia — 23 de novembro de 2009 @ 18:33
Tá na cara que houve queima de arquivo.
Comentário por claudia — 23 de novembro de 2009 @ 18:35
Mede na cadeia esse Marrazo que tá cheio de presidiário no seu aguardo e ele será feliz.
Comentário por Jojô — 23 de novembro de 2009 @ 18:38
Nossa que medo. Não vou mais prá Roma. Salvo com o Ronaldo Nazario.
Comentário por Sao Paulino — 23 de novembro de 2009 @ 18:40
Boa noite.
Resumindo, é bandido de todo tipo…
Comentário por Paulo Carvalho — 23 de novembro de 2009 @ 20:39
Parabéns pelas reportágens! São envolventes, cheias de detalhes, excelente jornalismo. Tomamo a liberdade de reproduzílas no nosso blog. Espero que aprovem.
Aproveito a oportunidade e convido seus leitores a darem um pulo lá.
Att,
Fast-food(e)
Comentário por Fast-food(e) — 23 de novembro de 2009 @ 23:20