CIA: a “casa caiu”, mas nada vai mudar no governo Obama sobre sequestro de pessoas em outros países
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A partir de hoje — data da publicação da sentença condenatória na imprensa oficial —, 22 espiões da CIA não poderão deixar os EUA, sob risco de prisão e extradição.
Certamente, terão lembrança do sucedido com torturadores, violadores de direitos humanos e assassinos que arriscaram passeios fora dos seus países, onde se mantinham imunes e impunes.
O falecido general Pinochet, por exemplo, não acreditou na força coercitiva dos mandados internacionais e acabou preso na Inglaterra, por ordem do juiz espanhol Baltazar Garzón.
Mais prudente, o 56º secretário de Estado americano, Henry Kissinger, nunca deixou o solo pátrio depois de se envolver numa série de atrocidades e desumanidades, a serviço dos governos Richard Nixon e Gerald Ford (1973 a 1977).
Os mandados internacionais para captura dos 007 da CIA já estão nos computadores das polícias dos Estados-membros da União Europeia e dos países que mantêm acordo de cooperação internacional com a Interpol e a Europol.
Os 007 da CIA, junto com 11 italianos do serviço secreto peninsular foram condenados à revelia por sequestro, em Milão e no ano de 2003, do imã Abu Omar. No Brasil, não seriam condenados, pois a lei processual não admite julgamento daquele que foge antes de ser citado para o processo: grande Brasil, il, il, il, il. . .
Abu Omar é o nome religioso de Nasr Mustafá, um imã de 45 anos que figurou no elenco dos dez mais procurados da Central Intelligence Agency (CIA).
Contra Abu Omar pendia um mandado de prisão por terrorismo internacional, expedido pelo Egito.
Segundo a CIA e o governo do Egito, ele era um membro da alta burocracia da Al-Qaeda. Uma de suas tarefas consistia em recrutar camicases dispostos a explodir no Oriente Médio e, lógico, fazia a arregimentação entre os mais ansiosos em desfrutar no paraíso o otium cum dignitate (ócio com dignidade), presente no imaginário dos “al-qaedistas”.
Abu Omar recebeu asilo político da Itália e vivia pacificamente em Milão, onde era responsável por uma mesquita islâmica.
As duas esposas de Abu Omar, em 2003, começaram a se preocupar com a falta de notícias do marido: uma residente em Tirana (Albânia) na companhia dos dois filhos do casal. A outra, moradora em Alexandria (Egito) com os três rebentos do segundo casamento. E a preocupação aumentou depois de o jornal italiano Corriere della Sera, na edição de 1º de março de 2003, haver noticiado o estranho desaparecimento do imã e suspeitar de 007 de serviços de inteligência.
Abu Omar vivia legalmente em Milão há cinco anos. Seu desaparecimento ocorreu na manhã de 17 de fevereiro de 2003, quando percorria o curto trajeto entre a sua residência e a mesquita que coordenava.
Naquele início de 2003, sabia-se que a CIA mantinha prisões secretas fora dos EUA, autorizadas por Bush. Isso para isolar, interrogar e torturar pessoas presas ou sequestradas pelos 007 da CIA e sob acusação de associação com organizações terroristas.
A propósito, o presidente Bush, em entrevista coletiva, admitiu a manutenção de cárceres secretos no exterior, evidentemente com violação a todas as conquistas universais no campo dos direitos humanos.
Com relação a Abu Omar, a magistratura do Ministério Público de Milão, a mesma da Operação Mãos Limpas, concluiu ter ocorrido sequestro. Pior ainda, numa ação da CIA em território italiano e com séria suspeita de cobertura ilegal pelo Sismi, sigla do Serviço para as Informações e a Segurança Militar Italiana, comandado pelo general Nicolò Pollari e subordinado ao Ministério da Defesa.
Pelo comprovado no processo criminal pela Promotoria italiana, a CIA mantinha um escritório de espionagem em Milão, dirigido por Robert Seldon Lady, vulgo Bob Seldon.
Coube ao espião Bob Seldon preparar a operação de sequestro de Abu Omar, que contou com a participação direta de 12 pessoas. O imã acabou sequestrado na milanesa Via Gerzoni. Num furgão, foi levado até a base americana de Aviano, localizada na cidade italiana de Pordenone.
Num jatinho fabricado pela Gulfstream e de propriedade de um time de beisebol de Boston (Sarasota Red Sox), alugado por 5 mil euros a hora de voo, Abu Omar, com escala na Alemanha (base aérea de Ramstein), terminou a viagem no Cairo.
Na execução do plano de sequestro da CIA, coube ao maresciallo Ludwig (sargento na hierarquia dos carabineiros italianos) abordar Abu Omar e pedir-lhe a apresentação de passaporte.
No relato de Ludwig, nome de guerra de Luciano Pirioni, o imã permaneceu de costas para o furgão alugado pela CIA. Do furgão saíram cinco brutamontes, que o arrastaram para o seu interior.
Um automóvel dirigido por pessoa designada pelo espião Bob Seldon recolheu Ludwig e ficou com os documentos e o celular de Abu Omar.
Ludwig, que tinha interesse de ingressar no mundo da espionagem, exultou ao receber, depois do sequestro, a informação da sua designação para a embaixada italiana em Belgrado, a ganhar o triplo do soldo e muitas vantagens na carreira. Perante a Justiça, o maresciallo sustentou que o Sismi sabia de tudo, segundo informou-lhe Bob Seldon.
Na última quarta feira — 4 de novembro de 2009 —, e pelo juizo penal monocrático de Milão, foram condenados, pelos crimes de sequestro e de favorecimento a esse ilícito, 22 espiões da CIA e 11 agentes pertencentes ao antigo serviço secreto italiano (Sismi).
Por força da lei sobre segredo de Estado, reconhecida como aplicável ao caso pela Corte Constitucional italiana, declarou-se o não se poder proceder em favor do então chefe do Sismi, o general Nicolò Pollari.
Em razão do reconhecimento de imunidade diplomática, não foi proclamada a responsabilidade do ex-chefe da CIA na Itália, Jeff Castelli, e dos seus subordinados Ralph Russomando e Betnie Madero.
Igual tratamento, no entanto, não teve o ex-chefe da CIA em Milão, que foi o responsável e coordenador das ações que resultaram no sequestro do imã Omar. Assim, o americano Robert Seldon Lady, vulgo ‘Bob’, acabou condenado à pena de 8 anos de reclusão, à revelia: ele caiu fora da Itália quando, em 1 de março de 2003, o jornal Corriere della Sera revelou que o imã havia sido sequestrado em Milão e levado para o Egito, onde se encontrava preso e incomunicável.
Os 007 da CIA foram todos condenados à revelia. Além de altas penas de prisão, fixaram-se duas indenizações por danos morais em favor de Abu Omar (1,0 milhão de euros) e da sua segunda esposa Nabilla (0,5 milhão de euros).
Na revista CartaCapital, o responsável por este blog Sem Fronteiras, do Terra Magazine, contou, em outubro de 2006, com exclusividade e à luz de elementos contidos no processo que tramitava em segredo de Justiça, todos os detalhes sobre o sequestro e torturas suportados por Abu Omar, que, frise-se, nunca foi da Al-Qaeda nem arregimentava camicases.
PANO RÁPIDO. Sobre as condenações dos 007 da CIA, o governo Obama protestou e o atual diretor da CIA, Leon Panetta, não descartou a continuação de iguais operações, “só que com melhor controle para evitar abusos”.
Como se percebe, continua o vale-tudo na guerra secreta ao terror.
–Wálter Fanganiello Maierovitch–


