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Ontem, o ministro da economia do México, Gerardo Ruiz Mateos, afirmou, em Paris, que “o próximo presidente do México será um narcotraficante”. Ele está em visita oficial à França.
A sua afirmação objetivou criar impacto e sensibilizar a União Européia a apoiar a “war on drugs” (guerra às drogas) iniciada pelo presidente mexicano Felipe Calderon.
Uma guerra que teve início logo no primeiro dia da posse de Calderon (1/12/2006) e contou com a parceria do então presidente Bush, que bancou o já fracassado Plan Mérida: uma cópia adaptada do falido Plan Colombia.
Com Bush fora, o ministro da Economia, Gerardo Ruiz Mateos, corre em busca de recursos financeiros para essa aventura de Calderon.
Para se ter idéia, essa “guerra” mexicana provocou, em 2008, cerca de 4 mil mortes e grande parte das vítimas eram civis inocentes.
No funesto balanço fechado até a primeira quinzena de fevereiro de 2009, já são 5 mil mortos.
Por considerar a polícia corrupta e cooptada pelos potentes cartéis mexicanos, o presidente Calderon recolheu as suas armas de fogo e colocou o exército do México para executar a repressão ao tráfico de drogas proibidas. Assim, Calderon militarizou o combate aos cartéis que atuam, principalmente, no repasse de cocaína colombiana para os EUA.
Os cartéis mais combatidos são os de Tijuana, Golfo, Juarez, Sinaloa, Nova Laredo e Reynosa.
Segundo o governo, mais de 500 mil mexicanos estão envolvidos no tráfico ilegal de drogas.
Até Laura Zuniga, de 23 anos e eleita miss Sinaloa e miss Hispano-Americana, foi presa por ligações com o narcotráfico.
Ontem, centenas de cidadãos mexicanos bloquearam as principais passagens na fronteira entre México e EUA.
O bloqueio, conforme revelaram as faixas exibidas pelos manifestantes, foi para protestar contra os abusos e violências perpetradas pelo exército, a título de guerra aos cartéis e às drogas.
Os mexicanos que protestaram na fronteira bateram na tecla de uma “war on drugs” onde as conseqüências são suportadas por civis sem nenhuma vinculação com o narcotráfico.
Para o governo, os bloqueios das passagens de fronteiras foram organizados a mando dos cartéis.
Os manifestantes, em protesto, bloquearam as passagens nas fronteiras das cidades de Juarez, Reynosa e Nova Laredo (a cidade com recorde mundial de jornalistas assassinados por narcotraficantes). Na cidade industrial de Monterrey, várias rodovias utilizadas para escoamento de produção foram bloqueadas.
Organizações não governamentais de proteção aos direitos humanos manifestaram-se no sentido da legitimidade dos protestos, pois, efetivamente, civis estão a suportar abusos promovidos pelas forças de ordem do governo mexicano. De se acrescentar: até agora os cartéis estão a vencer o Estado e os resultados, em termos de perda de vidas, são desesperadores.
Na “war on drugs” mexicana, o exército emprega 40 mil soldados e todo o seu equipamento de guerra, como, por exemplo, helicópteros, aviões e blindados.
No início da “war on drugs” mexicana, o presidente Felipe Calderon contava com apoio da sociedade civil. Era uma sua promessa de campanha. Calderon, acusado de ter se beneficiado da fraude nas apurações dos votos, tentou, logo no primeiro dia do mandato, desviar o foco e conquistar a população. Para isso, deu início à “war on drugs”, com apoio dos EUA e das agências norte-americanas Cia e Dea.
A sociedade civil, no entanto, já questiona a opção bélica de Calderon. Ainda, preocupa-se com a informação oficial sobre o grau de corrupção das polícias.
No final de 2008, o ministro da defesa Guillermo Galvan, consoante entrevista ao jornal “El Universal”, noticiou que num grupo de três narcotraficantes a serviço dos cartéis, um dos integrantes passou regularmente e foi treinado pelas Forças Armadas.
Com efeito, teve grande repercussão a afirmação feita em Paris pelo ministro da Economia do México, no sentido de o próximo presidente poder ser um narcotraficante.
Para o ministro da Economia, isso só não acontecerá se o país se empenhar ao máximo para acabar com o narcotráfico, ou seja, com a sutileza de tanque-de-guerra ele abriu caminho para receber ajuda financeira internacional, pois, com relação aos EUA, a “fonte Bush” secou.
O referido ministro Ruiz Mateos elogiou o presidente Calderon e a sua última determinação de aumentar para 45 mil o número de militares do Exército na sua “guerra às drogas”: mais 5 mil soldados, a juntar aos 40 mil em atuação.
PANO RÁPIDO. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, começou com a mesma fúria populista de Felipe Calderon. Ou seja, com ações espetaculares contra narcotraficantes nas favelas, apesar do altíssimo risco para os seus moradores.
Os moradores das favelas que eram objeto da “pirotecnia” de Cabral ficaram, pela irresponsabilidade do governador, no meio do fogo cruzado entre traficantes e policiais. Mais, depois de rápidas ações de guerra, daí a “pirotecnia populista”, as tropas deixavam os morros e os traficantes voltavam a controlar os territórios.
Felizmente, o governador Cabral percebeu e considerou os riscos à população pobre e, hoje, desenvolve projeto de retomada não violenta do poder do estado nessas supracitadas áreas. À época, as ações militarizadas de Cabral, por evidente, contaram com o apoio dos endinheirados e da classe média. Lógico, a elite não mora nos morros e nas favelas nas quais a população esteve sob fogo-cruzado.
Wálter Fanganiello Maierovitch.
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Pano Rápido do JEOVÁ BARROS de A JÚNIOR, diretamente de Recife.
Caro Walter,
seu companheiro de kombi tem formação jurídica; minha monografia de conclusão de curso foi justamente sobre a descriminalização das drogas; isso nos idos de 2002, na amada capital pernambucana.
Desde então, sempre acompanho as notícias sobre este assunto, que muito me interessa, por ser tão cheio de polêmicas, caminhos, penhascos e tudo que tem direito.
A política da “war on drugs” está falida (aliás, sempre foi):
a) aumenta o lucro do traficante (lei do mercado: quanto maior o risco, maior o lucro);
b) fomenta a corrupção estatal (polícia, judiciário e outras instituições);
c) incentiva a violência, já que, por ser uma atividade ilegal, todo e qualquer conflito de interesses não pode ser levado ao poder judíciário (então, vale a lei do exercício das próprias razões; a lei do meis forte);
d) em decorrência da alínea c, alimenta-se também o mercado ilícito das armas;
e) o estado, ao invés de arrecadar impostos, o que seria possível com a legalização, põe dinheiro num saco furado, pois não há dinheiro que chegue;
f) a corda só arrebenta do lado mais fraco e, logo, quem vai para prisão, sempre, é o pequeno;
g) o aumento da população carcerária tem sido, na verdade, instrumento de controle social dos excluídos (isso tem ajudado a resolver o problema habitacional, dizem as más línguas);
h) em alguns países, tem servido como desculpa para intervenções internacionais, quando, na verdade, é sabido que por trás há um verdadeiro interesse geopolítico.
Bem, acho que ainda poderíamos enumerar outros motivos para sermos contra a políctica da “war on drugs” e, como diz o Moisés Naim, em seu livro “Ilícito”, as drogas não podem ser tratadas com moralismo, mas sim com política.
Mas, ao mesmo tempo, sabemos que a legalização pode se tornar um tiro no pé… Sendo assim, para aonde iremos nós, os passageiros da kombi?!
Gostaria muito de saber a sua opinião sobre tema tão rico e delicado.
Com a estima de sempre.
Jeová Barros de A. Júnior — 19 de fevereiro de 2009 @ 19:41.