Terra Magazine

5 de novembro de 2009

Travestis brasileiros e cocaína: governador italiano pode ter pago com verba pública

Natalia, como Marilyn Monroe, para a revista Novella, hoje nas bancas européias.

Natalia, como Marilyn Monroe, para a revista Novella, hoje nas bancas europeias.

Pelo jeito, não há muita diferença entre Roma e Brasília. Ou seja, lá e cá, existe, pelo controle precário, possibilidade de desvio de verba pública destinada à chamada representação de gabinete.

Neste ano, na Itália, foram instaladas catracas para atrapalhar a vida dos funcionários públicos fantasmas e inibir a entrada e a saída dos que comparecem só para marcar ponto e deixar o paletó no encosto da cadeira.

Nenhuma providência, no entanto, adotou-se com o “andar superior”, tomando de empréstimo a irônica expressão criada pelo brilhante jornalista Elio Gaspari, da Folha de S.Paulo e de O Globo.

No particular, deu confusão quando o Executivo tentou intrometer-se no Judiciário. Isto para controlar — também com catracas eletrônicas — o comparecimento dos juízes aos palácios de Justiça e às audiências.

Parêntese: não se sabe a opinião do ministro Gilmar Mendes — que opina sobre tudo e até prejulga — a respeito do sucedido em terras peninsulares.

Como na Itália ainda não se implantou o  cartão corporativo — nem para adquirir tapioca —, os gastos com a chamada “verba de representação” são registrados em diferentes e genéricos itens: “almoço oficial”, “ estacionamento e hotéis”, “ viagens ou deslocamentos para encontros políticos e culturais”, “postagem de correio” e quejandos.

Conforme suspeitam os magistrados do Ministério Público e os membros do grupo de operações especiais da polícia (ROS), o então governador Piero Marrazzo pode ter camuflado nesses supracitados itens genéricos o pagamento — com verba pública de representação de gabinete — de cocaína e de encontros íntimos mantidos com as travestis brasileiras Natalia, Brenda e Thaynna.

travesti brasileiro Brenda, em Roma

A travesti brasileira Brenda, em Roma

Alguns indícios provocaram a atual devassa nas contas públicas e na privada conta-corrente bancária do governador. Além do apurado exame nas contas públicas, foi  quebrado o sigilo bancário e fiscal do governador.

Afinal, quem ganha 10.566,89 euros por mês como governador (sem outra fonte declarada de ganho) não pode, salvo se for pródigo, gastar semanalmente 5 mil euros com travestis, ainda que sejam nossas conacionais canarinhas.

Como ensina a sabedoria lusitana, “quem tem cabritos e não é possuidor de cabras, de algum lugar eles provêm”.

A travesti Natalia — já miss no Rio de Janeiro e em Florença — declarou, em duas oportunidades — perante o grupo de ações policiais especiais (ROS) e o Ministério Público —, que recebia 5 mil euros por programa sexual com o então governador Marrazzo. O encontro íntimo não passava de quatro horas.

No primeiro interrogatório, Marrazzo — que renunciou em 27 de outubro em razão de haver sido filmado enquanto se relacionava sexualmente com a carioca Natalia — declarou que pagava 5 mil euros por “programa”.

"Um Outro Modo", era o mote de campanha do governador Marrazzo.

"Um Outro Modo", era o mote de campanha do governador Marrazzo.

Perante o magistrado inquirente, em relato de mais de três horas, Marrazzo mudou o relato. Afirmou que pagava mil euros para Natalia. Mais ainda, no dia fatídico tinha na carteira 3 mil euros e saiu zerado ( “al verde”, como se diz na Itália): mil para Natalia e 2 mil furtados pelos dois policiais que invadiram o apartamento, consoante declinou Marrazzo.

Natalia, em dois testemunhos, sustentou que recebia 5 mil euros por programa com Marrazzo.

Quanto à compra de cocaína, Marrazzo, no primeiro testemunho (ele aparece como vítima de extorsão por policiais), frisou que não fazia uso dessa droga proibida. Depois, perante o magistrado inquirente, admitiu o uso esporádico de cocaína em alguns programas e com preço embutido. Ressalvou nunca ter usado ou visto cocaína nos encontros com as brasileiras Natalia e Brenda, a última apelidada “Brendona”, pelo porte físico avantajado.

PANO RÁPIDO. O ex-governador não esperava uma investigação financeira. Entre as travestis que fazem trottoir, ele ficou conhecido por pagar muito pelos encontros íntimos. Quando passava pelas ruas, as travestis exibiam os seios, para tentar cooptá-lo para um encontro vantajoso economicamente.

Marrazzo formou-se em Direito, mas tornou-se jornalista da estatal de rádio e televisão italiana (RAI). Na RAI, nunca recebeu salário diferenciado.

– Wálter Fanganiello Maierovitch–

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26 de outubro de 2009

Travestis brasileiros derrubam governador italiano. Protagonistas Natália e Brenda em litígio

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mote da sua vitoriosa campanha a governador.

Marrazzo: mote da sua vitoriosa campanha a governador.

Natália e Brenda — duas travestis brasileiras que moram em Roma — são os protagonistas do escândalo que colocou fim à carreira política de Piero Marrazzo, governador da região (estado) italiana Lazio e que tem Roma como capital.

Em entrevista ao Corriere della Sera de hoje, com direito a fotografia, a brasileira Natália disse : “Com Marrazzo sai algumas vezes, mas ele nunca entrou no meu apartamento. Assim, não sou eu aquela que aparece no vídeo divulgado”: o mostrado no YouTube é falso, conforme avisa a polícia italiana.

Para a trans-brasileira, a filmagem teria sido realizada no apartamento da travesti brasileira Brenda, que divide morada com a francesa Michelle. Uma filmagem com celular e feita por pessoa que estava no quarto, mas não percebida pelo governador Marrazzo.

Sobre a acusação, Brenda (com foto no Corriere della Sera na edição de ontem) mantém-se em silêncio. Só que ela tem uma porta-voz, que disparou ataque verbal contra Natália: “Natália é má e invejosa”.

A porta-voz de Brenda é a transexual conhecido por Thayanna e seria, como escreveu a imprensa italiana, “um veado, como a brasileira Brenda” .

Marrazzo, em fim de mandato, se autossuspendeu do cargo e deu posse ao vice-governador.

Como as eleições estão marcadas para 28 e 29 de março de 2010, Marrazzo — que disse estar envergonhado e querer sumir — foi orientado pelo seu partido (PD-Partido Democrático) a não renunciar.

A renúncia levaria à imediata eleição, ou seja, antecipação eleitoral. E isso é tudo que Berlusconi, do PDL, deseja: ele já elegeu o prefeito de Roma, um ex-membro da juventude fascista. Agora, quer um governador direitista para a região (estado).

Tudo começou quando policiais do Raggruppamento Operativo Speciale (ROS ) investigavam a potente Camorra napolitana. Mais especificamente, a facção camorrista de Casal di Principe: a camorra casalese (Casal di Principe) é objeto do primeiro capítulo do meu modesto livro A Criminalidade dos Potentes, já esgotado nas livrarias.

Numa das interceptações telefônicas realizadas com autorização judicial, colheu-se o relato de que quatro carabineiros (policiais militares) estavam a chantagear o governador Marrazzo e usavam uma filmagem de encontro sexual dele com travestis, em quarto onde havia carreiras de cocaína em cima de uma mesa.

Para os quatro policiais militares (carabinieri), conforme investigação do ROS e da magistratura do Ministério Público, Marrazzo forneceu três cheques de 20 mil euros (R$ 50 mil). Era o primeiro preço de uma chantagem sem fim.

Os quatro policiais militares — já presos preventivamente — tentavam negociar os vídeos com a revista italiana Chi (Quem) e com o grupo Mondadori, de propriedade do premier Silvio Berlusconi.

Marrazzo — casado com uma jornalista e pai de duas filhas dessa união — não foi perdoado pela esposa, fato que aumenta a dramaticidade e o coloca no “fundo do poço”. Ele teve a dignidade de assumir a transgressão.

O escândalo em questão, pois houve vazamento e os jornais noticiaram, abalou Roma. Mais do que os escândalos imperiais e os contos e pinturas eróticas com ninfas e faunos.

Pelo que se percebe, o problema é que o ocorrido não é visto apenas como algo pertencente à esfera privada.

Como lembrou Massimo D’Alema, ex-comunista e ex-premier, “o comportamento privado de um homem público tem relevância pública. É um princípio que vale para todos”.

De se acrescentar que D’Alema é um dos líderes do Partido Democrático, ao qual pertence Marrazzo.

Os encontros amorosos filmados, por incrível, deram-se em prédio de apartamentos localizado na via Gradoli, 96 (Roma-norte).

Nesse mesmo prédio, há mais de 30 anos, as Brigadas Vermelhas mantiveram em cárcere privado o sequestrado Aldo Moro, ex-primeiro-ministro e presidente do então Partido Democrata Cristão. Moro foi lá julgado e executado pelos terroristas brigadistas.

PANO RÁPIDO. Ao Ministério Público, a “traveca” brasileira Natália disse ser a “fidanzata” (noiva-namorada) do governador Marrazzo.

Há pouco, o premier Berlsuconi anunciou que o seu grupo editorial (Mondadori) havia sido procurado e a ele ofertado um segundo vídeo sobre Marrazzo. Tal vídeo ainda não foi apreendido pela polícia e ainda não foi exibido.

O intermediário da oferta de venda do primeiro filme à imprensa teria sido, segundo noticiado,  o fotógrafo Massimo Scarfone.

Coube a Scarfone fotografar o ministro-secretário do ex-premier Romano Prodi. Isto quando o ministro Silvio Sircana, dentro do seu automóvel, acertava um “programa” com uma travesti brasileira.

Em Roma, os “trans”, conforme matérias jornalísticas, mudaram do parque de Vila Borghese para as vias Gradoli e Del Due Ponti e o largo Sperlonga. Cada “programa”, sem cocaína, custa 1.500 euros.

Como dito por um entrevistado pelo jornal La Repubblica de domingo, os “veados” brasileiros são os mais requisitados e isso por serem mais desinibidos.

–Wálter Fanganiello Maierovitch–

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